Inovações tecnológicas como abordagem de tratamento fisioterapêutico na Doença de Parkinson

Terça, 13 de Agosto de 2019

Inovações tecnológicas como abordagem de tratamento fisioterapêutico na Doença de Parkinson

 

Inovações tecnológicas como abordagem de tratamento fisioterapêutico na Doença de Parkinson

 

A Doença de Parkinson (DP) é uma desordem neurodegenerativa, de caráter crônica e progressiva que acomete tanto o sistema nervoso central quanto sistema nervoso periférico.

O prejuízo motor é classicamente utilizado como marcador clínico de diagnóstico da DP. As principais características são a rigidez muscular, bradicinesia (lentificação do movimento), hipocinesia (diminuição dos movimentos) ou acinesia (dificuldade em iniciar o movimento), instabilidade postural e tremor de repouso. Outros sintomas motores incluem alterações posturais e na marcha, dificuldades na fala e deglutição, micrografia (escrita muito pequena e que diminui à medida que é escrita) e face em máscara. Como sintomas denominados não-motores podemos incluir o distúrbio do sono, depressão, disfunção autonômica, hipotensão ortostática, distúrbios gastrointestinais urinários, distúrbios sexuais, anormalidades sensoriais e da dor, dermatite seborréica, problemas respiratórios e declínio cognitivo.

Devido ao comprometimento emocional, físico, mental e social que a DP causa, a qualidade de vida das pessoas que são acometidas pela doença pode ficar muito prejudicada, reduzindo sua participação social e levando ao isolamento. Por isso, preservar a qualidade de vida é um desafio para os profissionais da saúde visando principalmente sua autonomia.

 

Como a Fisioterapia pode ajudar os pacientes com Doença de Parkinson?

Fisioterapeutas tem um papel muito importante no tratamento da doença de Parkinson, pois proporcionam uma melhora no estado geral do paciente e maximizam a sua funcionalidade. Seu principal desafio é proporcionar formas de exercitar os pacientes procurando melhorar suas funções motoras e cognitivas, impactando positivamente nas funções não motoras.

A professora mestre em Neurociências e Comportamento, Keyte Guedes, reforça que “é sempre bom nos lembrarmos da importância do tratamento multidisciplinar para acompanhamento desse paciente. Ou seja, ele precisa do acompanhamento médico, seja do seu geriatra ou neurologista, mas também de outros especialistas como o fonoaudiólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional, educador físico e psicólogo”.

 

E a tecnologia? Pode ser uma aliada no tratamento da DP?

Atualmente a tecnologia tem sido aplicada como uma alternativa aos exercícios praticados por quem tem DP. Consoles como o Nintendo Wii, Xbox Kinect, Sony Playstation (EyeToy), XaviX, assim como o óculos de realidade virtual (Head Mounted Displays – HMD) visam promover a neuroplasticidade e a aprendizagem motora.

O conceito de realidade virtual (RV) foi definido, em meados de 1960, por Ivan Sutherland a descrevendo como “uma janela através da qual um usuário percebe o mundo virtual como se olhasse, sentisse, soasse real e no qual o usuário pudesse agir de forma real” (Sutherland, 1965).

Desde essa época e de acordo com a área de aplicação, várias definições foram formuladas. No entanto, embora distintas as definições, três características comuns destacam-se dos sistemas de RV: imersão (percepção de estar presente em um ambiente), o envolvimento (grau de engajamento do usuário) e a interação com esse ambiente.

Desta maneira, podemos entender a RV com aplicação para a fisioterapia como uma tecnologia gerada por computador que promove a interação entre usuários e ambientes virtuais, onde as tarefas são executadas em uma estimulação de alta intensidade (Kafri et al, 2014; Holmes et al 2013), proporcionada pelo feedback visual, sensorial e auditivo aumentado (Saposnik et al, 2010).

Devido ao baixo custo e facilidade de acesso, os exergames (vídeo games ativos ou exercícios baseados em jogos de vídeo) são os dispositivos mais utilizados. Evidências recentes evidenciam o potencial de exergaming para a reabilitação da DP, colaborando com os resultados achados por uma meta-análise realizada por Dockx et al (2016), principalmente sobre:

- O equilíbrio, a aprendizagem motora, a cognição e a independência nas atividades de vida diária, com resultados melhores ou similares do que os grupos controle;

- Enfatizam a confiabilidade e a segurança do Microsoft Kinect e do Wii Balance Board nos cenários propostos;

- Estudos piloto declararam a segurança e a viabilidade do Microsoft Kinect e do Wii Balance Board em cenários domésticos;

- Artigos técnicos declararam a confiabilidade dos dados de equilíbrio e marcha captados por ambos os dispositivos.

 

Quais as vantagens / benefícios do uso da realidade virtual em pacientes com DP?

De acordo com a Diretriz Européia de Fisioterapia para a DP, seis áreas centrais foram identificadas como determinantes para direcionar a fisioterapia nesses indivíduos: capacidade física, transferências, postura, atividades manuais, equilíbrio e marcha (Keus et al, 2014). Além disso, sugerem que uma abordagem da tarefa orientada para a prática a fim de facilitar o processo de aprendizagem motora e de transferência para as atividades da vida diária, e o uso de pistas externas para melhorar a marcha.

Assim, visando essas recomendações, os benefícios do uso de exercícios baseados em RV realizados por meio de videogames são:

Características da DP

Recursos da RV

Treino da função motora e cognitiva;

(Brauer and Morris 2010; Niewboer et al, 2009)

Estimulação cognitivo-motora de forma integrada; (Pichierri et al, 2011)

Ambiente com tarefas motoras e cognitivas complexas; (Mendes et al, 2014; Galna et al, 2014)

Atenção é altamente explorada e reforçada; (Bavelier et al, 2012)

Deficiência na aprendizagem motora

Repetição, retroalimentação e motivação;

(Deutsch et al, 2011; Griffin et al, 2011)

Possibilidade de variar as condições de treinamento; (Butler and Willett, 2010)

Ativação de neurônios espelhos por meio da observação dos movimentos; (Saposnik et al, 2010)

Realimentação imediata do desempenho e resultado; (Mendes et al, 2012)

Necessitam de mais prática

É possível realizar altas doses de treino intenso (repetição e duração); (Butler and Willett, 2010)

Ao mesmo tempo em que estimulam estratégias executivas de forma envolvente e motivacional (Laver et al, 2015)

Necessitam de informação sensorial adicional

Melhora da resolução espacial e temporal da visão; (Green et al, 2010)

Fornece estímulos visuais e auditivos intensos; (Deutsch et al, 2011)

 

A professora Keyte reforça que é muito importante tomar vários cuidados. “Nem todos os jogos servem para todos os propósitos, bem como esta estratégia não se aplica a todos os indivíduos com DP. É necessário analisar as demandas motoras e cognitivas de cada jogo, avaliar muito bem o paciente antes de selecionar o jogo para assim poder considerar qual o que melhor para cada caso. Além disso, os pacientes devem ser monitorados pelos profissionais habilitados para dar qualquer tipo de assistência caso seja necessário.”

Para saber mais, leia o estudo completo da professora Keyte Guedes disponível em: Silva et al. Pilot and Feasibility Studies (2017) 3:68; DOI 10.1186/s40814-017-0210-3